A senhora Ossos
Veio para Portugal aos 13 anos sem sequer saber falar a língua. Hoje, coloca o seu produto em quase 20 países e coleciona prémios de empreendedorismo. O perfil de Cláudia Ranito.

A primeira coisa que desperta a atenção assim que se entra no gabinete de Cláudia Ranito é o mapa-mundo que tem na parede, onde assinala com pioneses os países onde o seu produto chega. E já são muitos, desde a vizinha Espanha a outros mais longínquos como o Camboja, Hong Kong e Colômbia. "Quero atingir todos os pontinhos do mundo", diz com um brilho nos olhos. Desde que criou a Medbone, em 2008, para fabricar osso sintético, que a exportação foi uma prioridade, e nunca lhe passou pela cabeça que o facto de estar em Portugal a impedisse de concretizar esse objetivo. "Acreditei sempre que era possível a partir de Portugal ter um projeto tão ambicioso, devidamente implementado, com as melhores práticas, equipamentos e materiais a nível mundial", garante.
A aventura começou há quase 5 anos, quando a falta de apoio para continuar a fazer investigação a colocou numa encruzilhada: ou abandonava Portugal para ir trabalhar para os Estados Unidos, ou avançava com o sonho de criar a própria empresa para produzir um substituto de osso natural, que melhorasse a qualidade de vida das pessoas. O apoio da Agência de Inovação foi determinante para apostar no sonho e nem a crise, que se vivia na altura, a demoveu. "A crise é real, mas as oportunidades continuam a existir", defende a empresária, que no segundo ano de atividade faturou 200 mil euros. Rapidamente, a veia empreendedora e o projeto conquistaram também o apoio da DNA de Cascais e da ANJE.
"Se acreditarmos que um projeto pode ser viável, depende de nós torná-lo realidade", diz Cláudia, que aos 31 anos é CEO de uma empresa portuguesa que é já uma referência mundial na área da regeneração óssea. Licenciada em Engenharia de Materiais e depois de 10 anos de investigação na área de biomateriais, Cláudia percebeu que o mercado precisava de um substituto de qualidade de osso natural, para ser usado em cirurgias ortopédicas, dentárias e, mais recentemente, também nas veterinárias. Reunidos alguns apoios e acreditando que estava no caminho certo, investiu 600 mil euros em equipamentos, e instalou-se num pequeno armazém, em Alcabideche, onde fabrica.
Dois anos em testes
Entre iniciar a empresa e começar a vender, foi preciso tratar do desenvolvimento do produto, dos testes, dos ensaios clínicos e das certificações. Foram praticamente dois anos a desbravar caminhos que não conhecia, mas Cláudia não se intimidou e tratou de tudo sozinha. Até ao início deste ano foi praticamente uma 'one woman show', era ela que sozinha tratava da produção, enviava o produto para esterilização em Inglaterra e, quando ele voltava a Alcabideche, embalava-o para os clientes - hoje já tem duas pessoas a trabalhar consigo. Porém, e contrariamente ao que pensou no arranque do negócio, esta foi a parte mais fácil. Os maiores desafios esperavam-na na área comercial. "Pensava que o difícil era ter o produto e que depois vendê-lo seria fácil, mas enganei-me", confessa. Tratar do marketing, das negociações e dos contratos com os clientes foi um processo de aprendizagem, feito à custa de alguns erros, mas que hoje já domina.
Apesar de trabalhar com distribuidores, desdobra-se em viagens para esclarecer dúvidas sobre as propriedades do produto e fechar contratos. Começa a trabalhar às 8h da manhã, mas não tem hora para terminar - o telemóvel está sempre ligado. Os diferentes fusos horários dos países com que trabalha, podem acordá-la a qualquer hora, mas Cláudia não se queixa. "Sempre acreditei que a Medbone correria bem e só depende de mim que corra", admite.
No gabinete, ao lado do mapa-mundo, vai colecionando os vários prémios que a têm distinguido pela capacidade empreendedora. O último, foi-lhe atribuído pela ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários) e recebeu-o a 24 de fevereiro, das mãos do Presidente da República, depois de ter superado cinco outras startups, que também estavam na corrida. Reconhece: "É importante sentir que o país valoriza e se orgulha de ter uma empresa como a Medbone, que está a conseguir chegar a todos os pontos do mundo".
Expresso, 27-02-2012